Julho chegou e com ele aquela mistura conhecida de quem tem filho: a alegria das férias e o leve desespero de saber que a rotina vai por água abaixo. Escola parada, programação diferente, viagem marcada. E no meio disso tudo, a planilha de treino olhando pra você com cara de cobrador.
A boa notícia é que dá pra conciliar. Não vai ser igual à sua semana normal em casa, e tudo bem. Férias são férias, e isso inclui um pouco mais de flexibilidade. Mas "flexibilidade" não precisa significar parar completamente. Com um pouco de planejamento antes de viajar, você consegue manter o movimento e ainda descobrir lugares incríveis pelo caminho.
Avisa o seu coach antes de viajar
Se você treina com assessoria ou tem um planilheiro, esse é o primeiro passo: conta pra ele que você vai viajar. Faz diferença. Um bom coach consegue adaptar a semana de treino pro contexto das férias, reduzir volume em dias de viagem, ajustar os treinos-chave para momentos que fazem sentido com a sua programação. Não precisa sumir da planilha nem ignorar tudo. Só comunicar.
Na hora de escolher onde ficar, pensa no corredor que você é
Isso virou um critério de escolha de hospedagem pra mim. Antes de confirmar qualquer reserva, eu pesquiso: o hotel tem academia? Tem um parque perto? Tem orla, ciclovia, calçada decente?
Parece exagero, mas faz toda a diferença na prática. Um hotel com esteira já resolve os dias de chuva ou os dias que a logística com criança não permite sair. Um parque próximo abre possibilidade pra um treino de manhã cedo, antes de todo mundo acordar.
Pesquisa o lugar antes de chegar
Essa dica aprendi na prática. Quando viajei pra Barretos em janeiro, fui antes pesquisar se existia assessoria de corrida na cidade. Encontrei. E a partir daí descobri onde eles treinavam, qual era o parque, qual o horário. Cheguei já sabendo onde ia correr e encontrei várias pessoas correndo e caminhando no parque dos lagos.
*Regional 24 Horas (fonte da imagem)
"Em Fortaleza foi diferente: ficamos no Beach Park, então fui atrás de ruas no entorno que fossem propícias pra corrida. Encontrei percursos com boa calçada, um pouco de subida, distância suficiente. Não precisei de assessoria local pra isso, só de um pouco de pesquisa no Google Maps antes de embarcar.
O Strava também é um recurso ótimo pra isso. Os segmentos populares de uma cidade mostram exatamente onde os corredores locais treinam. É um atalho para descobrir os melhores percursos sem precisar conhecer ninguém.
Use o terreno novo a seu favor
Correr num lugar diferente é uma das coisas mais gostosas da corrida, e férias são a oportunidade perfeita para isso. Praia? Areia molhada na beira d'água é um treino e tanto pras panturrilhas. Serra? A subida que antes você fugia agora vira desafio. Cidade nova? Você consegue conhecer muito mais do lugar a pé e em ritmo de corrida do que dentro de um carro.
Não precisa replicar o treino exato da planilha. Se você estava programado pra um longão de 16km e o percurso disponível tem 10km incríveis com subida, vai de 10km com mais intensidade e aproveita. O corpo absorve estímulo diferente muito bem, e você volta pra casa com histórias pra contar.
Corra cedo. Sério.
Com crianças em férias, a janela de treino ideal é antes de todo mundo acordar. Às 6h, 6h30, o mundo ainda está quieto, o calor de julho ainda não chegou (dependendo de onde você estiver) e você tem a rua praticamente pra você. Quando a família acorda, você já treinou, já tomou banho e ainda consegue estar presente no café da manhã sem aquela culpa de "preciso ainda sair pra correr".
Parece sacrifício, mas quem se acostumou com treino matinal sabe: é o horário mais tranquilo do dia.
Nos dias que não dá, não dá
Tem dia de viagem que simplesmente não encaixa. Dia de translado longo, passeio com as crianças que tomou o dia todo, jantar que foi até tarde. Nesses dias, descansar sem culpa. Férias também são recuperação, e forçar um treino exausto no final de um dia puxado não vai te deixar mais em forma, vai só te deixar mais cansado.
O que não pode é deixar o "não dá hoje" virar o padrão da semana inteira. Um ou dois dias sem correr é descanso ativo. A semana toda parada é perda de base.
Não esqueça da hidratação e da alimentação
Em viagem a gente come fora, come diferente, come em horários esquisitos. Tudo bem, faz parte. Mas preste atenção na hidratação, principalmente se você foi pra um lugar mais quente do que o que você está acostumado. O corpo demora uns dias para se adaptar ao calor, e nesse período o rendimento cai e a sede engana.
Beba água antes de sair para correr, leve água se o percurso for longo, e no pós-treino não pular a refeição. Proteína, carboidrato, fruta. O básico que você faz em casa continua valendo na viagem.
Equipamento: leve o essencial, não leve tudo
Tênis de corrida vai na bagagem de mão ou dentro do tênis cheio de meias dentro da mala. Não fica para ser despachado. Leve duas ou três peças técnicas de corrida que secam rápido, dá pra lavar na pia e usar no dia seguinte. Relógio carregado, fone, protetor solar se for correr de dia. Só isso já resolve.
Não precisa levar o armário esportivo inteiro. A mala já vai cheia de coisa de criança mesmo.
Férias são parte do processo, não pausa nele
A mentalidade que mais me ajuda nessas épocas é essa: férias não são interrupção do treino, são parte do ciclo. Você está se movimentando de forma diferente, vendo lugares novos, descansando a cabeça da rotina. Tudo isso alimenta o corredor que você está construindo.
Quem volta das férias de julho com dois ou três treinos na bagagem já volta na frente. E quem volta com histórias de ter corrido em Barretos, em Fortaleza, na beira do mar ou numa cidade que nunca imaginou, volta com algo que nenhuma planilha consegue dar.
Aproveite as férias. E leva o tênis.
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